Novembro 04 2009

O Diário de Notícias, hoje, publicou uma notícia sobre a saída dos crucifixos das escolas. A notícia, que podem ler aqui, diz que, na sequência de uma sentença do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos relativa a um caso em Itália, a Associação República e Laicidade está a ponderar avançar com nova exigência para a retirada dos cruxificos de todas as escolas públicas.

Uns dizem que se deve tirar, outros que só a pedido expresso de pais, professores ou empregados, outros que se deve deixar ficar.

A Igreja, como não podia deixar de ser, mete a sua colherada, e diz que se deve deixar ficar "porque é um símbolo da cultura ocidental" (para uns um símbolo religioso, para outros um ícone anti-violência). Diz Manuel Marujão, em nome da "diversidade cultural": "Se vamos vetar todos os símbolos que possam ter um cariz religioso, qualquer dia não podemos ter uma medalhinha ao pescoço, mesmo que seja por uma questão de estética". Já se fosse um crescente islâmico... "Esse não é propriamente um símbolo da nossa identidade cultural. A raíz cultural da escola pública não é muçulmana". Ou seja, para outras religiões o argumento da diversidade cultural já não serve.

Bem. Analisando tudo isto, chego a esta conclusão: a diversidade cultural serve para justificar qualquer coisa. Não sei se por ser um nome pomposo, se por cheirar a justiça e direitos humanos, é o que acontece! Se não, vejamos:

O nosso Estado é, supostamente, um estado laico. Isto significa que não tem religião, e que permite liberdade de culto a todos os cidadãos, que podem escolher a religião que bem lhes apeteça. Se quisermos fazer do Quicky dos Nesquik o seu Deus, não há nada que nos impeça!  Sendo assim, a escola pública deve proporcionar aos alunos, docentes e não docentes esse mesmo clima de liberdade, dando sempre a imagem de estado laico.

O que acontece é isto: há escolas que, em vez de se mostrarem laicas, exibem nas suas paredes símbolos religiosos.

E aqui as opiniões dividem-se: uns acham que se deve abolir por completo a exibição de símbolos religiosos nas escolas (em nome da laicidade do estado); outros acham que mais ou menos (em nome da liberdade de escolha); outros acham que se devem manter (em nome da cultura ocidental).

Comecemos pelo fim: a Igreja. A Igreja acha que se devem manter os crucifixos porque são símbolo da nossa identidade cultural, e fala em "diversidade cultural". Acontece que esta diversidade cultural, pelos vistos, só serve para os portugueses de gema que vão à Igreja e são devotos da nossa senhora; os muçulmanos ou ateus que também vão à escola já não têm direito à diversidade cultural (e note-se que há muitos ateus ocidentais...).

Entretanto, há gente que está ali no meio: acha que se devem manter, a não ser que peçam para tirar. E se algum muçulmano pedir para porem ao lado da cruz um crescente islâmico? Põem? Ou a opção limita-se na mesma aos "ocidentais"?

Fica por fim a última opção, que, como já viram, é a que me parece mais aceitável.

Aproveito já para dizer que não sou ateia nem muçulmana. Sou cristã, e orgulho-me disso. Não tenho nada contra cruzes em paredes, e também não sou a maluquinha da diversidade cultural, que acha que não se deve usar cruzes ao pescoço para não ferir a susceptibilidade das outras pessoas. Simplesmente acho completamente contraditório que, num estado supostamente laico, se exibam numa escola símbolos religiosos católicos e se recusem a exibir símbolos religiosos muçulmanos ou judeus. Afinal a diversidade cultural só se aplica a quem nos interessa? Se há crucifixos nas escolas, tudo bem. Mas tem de haver suficiente poder de encaixe para colocar ao lado dos ditos crucifixos símbolos de outras religiões... ou não estamos a ser coerentes.

Por outro lado, acho também curiosa a posição dos ateus radicais, fortes defensores da laicidade do Estado. Porque os crucifixos não estão bem, e a missa a passar no canal público não está bem, e porque nada que meta Igreja está bem.

Mas depois chegam ao dia 1 de Novembro ou ao 8 de Dezembro ou à Páscoa ou ao feriado do Corpo de Deus e esfregam as mãos de contente porque não há trabalho e podem ficar a dormir até ao meio-dia.

Afinal a diversidade cultural é boa, excepto quando é igual ao quentinho da cama em dias preguiçosos.

Deus não existe, mas dias santos... que os há, há. E que santos que eles são!

publicado por Inês Rocha às 19:40

Outubro 12 2009

«O dado sociológico relativo ao modelo histórico e institucional segundo o qual os aparelhos dos mass media se organizaram (fluxo unidireccional, centralização, palimpsestos e formatos rígidos) liga-se, em termos de mecanismo comunicativos, a elementos particulares, susceptíveis de serem encontrados e descritos no modelo semiótico-textual. Por outras palavras, este modelo permite que se individualize o modo como um dado estrutural dos aparelhos se transforma num mecanismo comunicativo e o modo como, através dessa mediação, incide sobre os processos de interpretação, de aquisição de conhecimentos e, finalmente, sobre os efeitos dos mass media.»

Mauro Wolf, Teorias da Comunicação

 

 

(Só para eu perceber se sou mesmo mesmo burra. Alguém entendeu?)

publicado por Inês Rocha às 23:18

Outubro 10 2009

Não é que ele não tenha valor.

Aliás, é o presidente de que o Mundo precisava, depois de Bush. É o presidente da Esperança, ou pelo menos das boas intenções.

Mas na prática. O que é que ele fez de concreto para receber o mesmo prémio que Martin Luther King recebeu em 1964 e que Ghandi nunca recebeu?

Guantánamo não fechou; a guerra do Iraque e do Afeganistão não acabaram; Israel e Palestina ainda não viram paz; o Irão continua a caminho de produzir uma bomba atómica semelhante à utilizada pelos EUA em Hiroshima, no final da Segunda Guerra Mundial; a Coreia do Norte mantém o seu programa nuclear.

A pergunta que se põe é: o prémio Nobel atribuido a Obama não será precipitado?

Admiro muito o senhor. No entanto, o mundo não se altera com um estalar de dedos. Um presidente do Estado mais poderoso do mundo tem muita coisa a enfrentar, e há coisas que não se alteram simplesmente porque ele quer.

Aos nove meses de mandato, Obama tem obra feita que justifique esta atribuição do Prémio Nobel da Paz? A meu ver, não.

Um prémio nobel não pode ser simplesmente um incentivo à acção. Se é assim, eu própria vou escrever uma reclamação ao comité norueguês a dizer que eu também quero um incentivo desses, porque assim vou fazer paz que é uma coisa doida. Um prémio nobel é um reconhecimento de uma obra notável, neste caso relacionada com a Paz Mundial.

Obama não tem uma obra notável. Ele é notável, porque está a ser capaz de questionar coisas que mais ninguém teve a coragem questionar. Agora esperemos que este não seja um presente envenenado que lhe ponha ainda mais responsabilidade em cima - uma responsabilidade que mais tarde se perceba que afinal não cabe num só homem.

publicado por Inês Rocha às 11:57

Outubro 09 2009

 

 

Fiquei contente. É um povo com ritmo, com personalidade, que vai saber organizar uns Jogos Olímpicos à sua medida.

Fica a esperança de que a aparência não ultrapasse a essência, como aconteceu em Pequim.

 

Hoje fica só isto. Sempre é melhor do que o nada que ficou nos outros dias.

Peço desculpa, mas estou a adaptar-me a algo que já não sabia muito bem o que era: trabalho.

publicado por Inês Rocha às 18:47

Setembro 25 2009

Olá.

Estive a pensar qual seria a primeira palavra que escreveria neste blogue. "Olá" foi a opção. Porquê?

Não faço a menor ideia. Escrevi este "Porquê" para me obrigar a meditar sobre este assunto que, presumo que concordem, é de tão grande importância.

"Olá" foi a primeira palavra que eu disse na vida. Não foi "Mamã" nem "Papá" nem sequer foi "fiambre". Por isso, penso que percebem que é uma palavra importante na minha vida, a base de todas as outras.

O certo é que não consigo passar um dia sem o dizer. Eu digo "Olá" à minha mãe quando me levanto da cama e me cruzo com ela no caminho entre o quarto e a casa de banho; digo "Olá" ao meu cão quando tropeço nele por o sono ainda não me deixar ver um palmo à frente do nariz; digo "Olá" a um conhecido que vá no mesmo autocarro que eu e me acene a dizer "estás aqui?", como se não soubesse que estou realmente ali e não sou um holograma; digo "Olá" aos colegas da faculdade que já reconheço como tal; digo "Olá" à empregada do meu avô antes de ela me perguntar: "Inês, queres peixe ou croquetes?"; digo "Olá" à família quando consigo fugir da dita empregada e não permito que ela me conte a sua vida inteira; digo "Olá" à senhora do quiosque onde vou carregar o Andante, visto que gasto 3942083049 viagens por dia (não, pensando bem, digo só "São 2 viagens z3, por favor", mas acho que vou passar a dizer-lhe "Olá").

E não me apetece acrescentar mais "Olá's" à lista.

Esta palavra de três letras apenas encerra um mundo, um mundo que quis transmitir-vos neste primeiro post do "Letras nem só na sopa". Acontece que neste momento não consigo explicar bem que mundo é esse. Na verdade, quando a escrevi estava só mesmo a arranjar uma maneira de começar o texto.

Bem, "Olá's" à parte, apresento-me.

Sou a Inês Rocha, tenho 18 anos e estudo Ciências da Comunicação: Jornalismo, Assessoria e Multimédia, o que é um nome pomposo para dizer isto: "um dia hei-de ser uma jornalista mal paga mas orgulhosa de quem sou".

Criei este blogue ainda não sei bem porquê, mas acho que este ano vou descobrir. Provavelmente, o "Letras nem só na Sopa" será reflexo daquilo que eu vejo no mundo, o que acho interessante, o que acho curioso e o que acho que simplesmente não devia existir. Serão críticas a alguma coisa, sugestões para os desgraçados que tiverem pachorra para ler ou até simples devaneios de quem gosta de viver no meio das palavras, ainda que elas não tenham sentido absolutamente nenhum.

Mais simplesmente, posso dizer que umas vezes pode ser que saiam coisas interessantes e outras vezes vocês vão pensar: "que raio é que ela estava a pensar para escrever esta porcaria?". E provavelmente a resposta será: "em absolutamente nada".

Sejam bem-vindos à minha (nova) humilde casa.

 

publicado por Inês Rocha às 19:12
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Uma análise (des)cuidada de quase tudo.
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