O Diário de Notícias, hoje, publicou uma notícia sobre a saída dos crucifixos das escolas. A notícia, que podem ler aqui, diz que, na sequência de uma sentença do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos relativa a um caso em Itália, a Associação República e Laicidade está a ponderar avançar com nova exigência para a retirada dos cruxificos de todas as escolas públicas.
Uns dizem que se deve tirar, outros que só a pedido expresso de pais, professores ou empregados, outros que se deve deixar ficar.
A Igreja, como não podia deixar de ser, mete a sua colherada, e diz que se deve deixar ficar "porque é um símbolo da cultura ocidental" (para uns um símbolo religioso, para outros um ícone anti-violência). Diz Manuel Marujão, em nome da "diversidade cultural": "Se vamos vetar todos os símbolos que possam ter um cariz religioso, qualquer dia não podemos ter uma medalhinha ao pescoço, mesmo que seja por uma questão de estética". Já se fosse um crescente islâmico... "Esse não é propriamente um símbolo da nossa identidade cultural. A raíz cultural da escola pública não é muçulmana". Ou seja, para outras religiões o argumento da diversidade cultural já não serve.
Bem. Analisando tudo isto, chego a esta conclusão: a diversidade cultural serve para justificar qualquer coisa. Não sei se por ser um nome pomposo, se por cheirar a justiça e direitos humanos, é o que acontece! Se não, vejamos:
O nosso Estado é, supostamente, um estado laico. Isto significa que não tem religião, e que permite liberdade de culto a todos os cidadãos, que podem escolher a religião que bem lhes apeteça. Se quisermos fazer do Quicky dos Nesquik o seu Deus, não há nada que nos impeça! Sendo assim, a escola pública deve proporcionar aos alunos, docentes e não docentes esse mesmo clima de liberdade, dando sempre a imagem de estado laico.
O que acontece é isto: há escolas que, em vez de se mostrarem laicas, exibem nas suas paredes símbolos religiosos.
E aqui as opiniões dividem-se: uns acham que se deve abolir por completo a exibição de símbolos religiosos nas escolas (em nome da laicidade do estado); outros acham que mais ou menos (em nome da liberdade de escolha); outros acham que se devem manter (em nome da cultura ocidental).
Comecemos pelo fim: a Igreja. A Igreja acha que se devem manter os crucifixos porque são símbolo da nossa identidade cultural, e fala em "diversidade cultural". Acontece que esta diversidade cultural, pelos vistos, só serve para os portugueses de gema que vão à Igreja e são devotos da nossa senhora; os muçulmanos ou ateus que também vão à escola já não têm direito à diversidade cultural (e note-se que há muitos ateus ocidentais...).
Entretanto, há gente que está ali no meio: acha que se devem manter, a não ser que peçam para tirar. E se algum muçulmano pedir para porem ao lado da cruz um crescente islâmico? Põem? Ou a opção limita-se na mesma aos "ocidentais"?
Fica por fim a última opção, que, como já viram, é a que me parece mais aceitável.
Aproveito já para dizer que não sou ateia nem muçulmana. Sou cristã, e orgulho-me disso. Não tenho nada contra cruzes em paredes, e também não sou a maluquinha da diversidade cultural, que acha que não se deve usar cruzes ao pescoço para não ferir a susceptibilidade das outras pessoas. Simplesmente acho completamente contraditório que, num estado supostamente laico, se exibam numa escola símbolos religiosos católicos e se recusem a exibir símbolos religiosos muçulmanos ou judeus. Afinal a diversidade cultural só se aplica a quem nos interessa? Se há crucifixos nas escolas, tudo bem. Mas tem de haver suficiente poder de encaixe para colocar ao lado dos ditos crucifixos símbolos de outras religiões... ou não estamos a ser coerentes.
Por outro lado, acho também curiosa a posição dos ateus radicais, fortes defensores da laicidade do Estado. Porque os crucifixos não estão bem, e a missa a passar no canal público não está bem, e porque nada que meta Igreja está bem.
Mas depois chegam ao dia 1 de Novembro ou ao 8 de Dezembro ou à Páscoa ou ao feriado do Corpo de Deus e esfregam as mãos de contente porque não há trabalho e podem ficar a dormir até ao meio-dia.
Afinal a diversidade cultural é boa, excepto quando é igual ao quentinho da cama em dias preguiçosos.
Deus não existe, mas dias santos... que os há, há. E que santos que eles são!
